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Quem nos meteu estas ideias na cabeça? 5 livros para olhar o mundo de outra maneira

Foto do escritor: CarlaRibeiro
CarlaRibeiro
há 21 minutos
5 min de leitura

Como se transforma o medo em poder? Porque ganham os mitos tanta força? E quem decidiu que os humanos mandam nisto tudo? Cinco livros cruzam história, política, ciência e economia para pôr algumas certezas à prova.


Abre-se uma notícia, lê-se uma explicação, aparece outra que diz precisamente o contrário. Pelo meio, alguém garante que a solução é simples. É nessa altura que talvez valha a pena fazer uma pausa — sobretudo na parte do «simples».


As ideias têm consequências. Podem alimentar revoluções, sustentar regimes, transformar um homem numa lenda ou convencer uma espécie inteira de que o planeta está à sua disposição. E, quando se repetem vezes suficientes, algumas começam a parecer verdades que sempre estiveram ali.
Cinco livros para fazer perguntas melhores

Livros para fazer perguntas melhores


Estes cinco livros convidam a investigar de onde vêm essas convicções e o que fazemos com elas. Há conspirações, impérios em queda, promessas de prosperidade e uma pergunta pouco confortável sobre o nosso lugar na Natureza.

Convém deixar algum espaço na estante. E nas certezas.


As Origens da Era Autoritária, de Ibram X. Kendi


As Origens da Era Autoritária, de Ibram X. Kendi
O livro coloca uma questão que fica a trabalhar depois de se fechar a capa: o que acontece a uma democracia quando o extremismo deixa de ser reconhecido como tal?

O medo é um argumento poderoso. Sobretudo quando vem acompanhado de um culpado fácil de identificar e da promessa de que alguém vai resolver o problema.

Em As Origens da Era Autoritária, Ibram X. Kendi investiga a circulação da teoria conspiracionista da «Grande Substituição», que apresenta a imigração como parte de um plano para substituir a população branca, com a cumplicidade das elites.

O historiador acompanha estas ideias pela política de quase uma centena de países e procura perceber como passaram das margens extremistas para discursos com maior aceitação pública. No centro da análise estão o medo da imigração e a alegada ameaça à identidade.

Kendi examina também estratégias de partidos anti-imigração, incluindo a escolha de mulheres ou pessoas pertencentes a minorias para posições de liderança, que interpreta como uma forma de afastar acusações de racismo e tornar essas posições mais respeitáveis.


Revoluções – Uma Nova História, de Donald Sassoon


Revoluções – Uma Nova História, de Donald Sassoon
Uma leitura para quem quer perceber o que fica depois das palavras de ordem — e porque é que a História tem tão pouca vontade de cumprir guiões.

Fazer uma revolução já parece complicado. Garantir que o resultado corresponde ao que se imaginou é outro assunto.

Em Revoluções – Uma Nova História, Donald Sassoon revisita grandes transformações políticas com atenção às suas contradições, surpresas e consequências imprevistas.

Da Guerra Civil Inglesa às revoluções russa e chinesa, passando pela independência americana, pela Revolução Francesa e pelos processos de unificação de Itália e Alemanha, o historiador observa estes acontecimentos numa perspetiva de longo prazo.

A independência americana afastou o domínio britânico, mas deixou persistir a escravatura. A Revolução Francesa produziu a Declaração dos Direitos do Homem, acompanhada por anos de instabilidade. Entre os ideais anunciados e a realidade que se segue, há bastante matéria para pensar.

Sassoon cruza estes marcos com rebeliões, golpes e tumultos menos recordados, recuperando também episódios que mostram a ironia da História: a melodia «Yankee Doodle Dandy», por exemplo, começou por servir aos soldados ingleses para troçarem dos colonos americanos.



Rasputin e a Queda dos Romanov, de Antony Beevor


Rasputin e a Queda dos Romanov, de Antony Beevor
Quando o mito se torna mais convincente do que os factos, perceber quem o alimenta passa a fazer parte da investigação.

Mesmo quem sabe pouco sobre Rasputin provavelmente já ouviu qualquer coisa. E é precisamente aí que começa o problema: quanto desse «qualquer coisa» pertence à História e quanto pertence à lenda?

Em Rasputin e a Queda dos Romanov, Antony Beevor investiga a vida, a influência e a morte do camponês siberiano que conquistou a confiança dos czares.

Como conseguiu um homem com pouca instrução aproximar-se tanto do centro do poder? Que influência exerceu realmente? E o que há de fundamentado nos relatos de corrupção, abusos e escândalos que se acumularam à sua volta?

Através da análise de relatórios, entrevistas e interrogatórios até agora inéditos, Beevor procura esclarecer uma história em que boatos, crenças e interesses políticos se confundem.

O fascínio está também na fragilidade de um poder que permite a alguém sem cargo oficial ganhar tamanho peso. A confiança dos governantes, a oposição à sua influência e a circulação de rumores tornam este livro mais do que o retrato de uma figura enigmática.



O Símio Arrogante, de Christine Webb


O Símio Arrogante, de Christine Webb
Uma leitura que convida a observar melhor o mundo vivo — e a baixar um pouco o volume da nossa importância.

A humanidade gosta de se atribuir boas classificações. Mais inteligente, mais evoluída, mais importante. A avaliação perde alguma imparcialidade quando somos nós a preencher a grelha.

Em O Símio Arrogante, a primatóloga Christine Webb questiona a ideia de que os seres humanos ocupam um lugar superior ao das outras espécies — e analisa as consequências dessa convicção.

A autora defende que o excecionalismo humano assenta mais em pressupostos culturais do que em evidência biológica. Na sua leitura, essa mentalidade ajuda a justificar a exploração da Terra e dos restantes seres vivos para benefício humano, contribuindo para a crise ecológica.

Webb cruza investigação científica com episódios da sua experiência como primatóloga e chama a atenção para formas de vida cuja complexidade tendemos a subestimar: das capacidades de comunicação das aves e dos cães-da-pradaria às culturas dos chimpanzés e dos peixes de recife.

Também questiona os critérios com que a ciência avalia outras espécies. Afinal, procurar apenas capacidades semelhantes às nossas pode deixar muita coisa interessante de fora.



Economia de Exílio, de Ben Chu


Economia de Exílio, de Ben Chu
Uma leitura para olhar para a expressão «cada país por si» e perguntar o que acontece no dia seguinte.

Produzir tudo em casa, depender menos dos outros e proteger o país das incertezas externas. A promessa de autossuficiência tem argumentos sedutores. Falta perceber como funciona quando sai do discurso e entra nas cadeias de abastecimento.

Em Economia de Exílio, o jornalista de economia Ben Chu analisa a rejeição da interdependência e a procura de maior autossuficiência nacional.

O autor examina uma visão que propõe reduzir, ou mesmo cortar, ligações entre países no comércio, no investimento e na migração, prometendo em troca segurança, prosperidade e paz.

Para testar essa promessa, acompanha mercadorias como o silício, o aço, a soja e os painéis solares. Através delas, mostra a teia de relações que liga economias e procura identificar o que se arrisca quando essas ligações são quebradas.

O livro recorre também ao passado, incluindo ideias experimentadas na década de 1930, para dar contexto ao debate sobre isolamento e colaboração.



Cinco livros depois, talvez algumas opiniões continuem no mesmo lugar. Outras poderão precisar de revisão. E algumas perguntas vão certamente acompanhar a próxima leitura das notícias. A começar por esta: quando uma ideia parece explicar tudo, o que estará a deixar de fora?

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